terça-feira, 15 de julho de 2014


Madame Bovary*

A conversação de Charles era sensaborona e rasa como um passeio de rua e nela desfilavam as ideias de toda a gente em trajo vulgar, sem excitar emoção, nem riso, nem devaneio. Nunca tivera a curiosidade, segundo ele próprio dizia, de ir ao teatro ver os actores de Paris, enquanto residira em Ruão. Não sabia nadar, nem manejar as armas, nem atirar à pistola, e certo dia nem foi capaz de lhe explicar um termo de equitação que ela encontrara num romance.
Não devia um homem, pelo contrário, saber tudo, ser exímio em múltiplas actividades, iniciar a mulher nas energias da paixão, nos requintes da vida, em todos os mistérios? Mas aquele não ensinava nada, não sabia nada e não aspirava a nada.


in Madame Bovary, Gustave Flaubert

O que Emma pensa do seu marido revela muito do que a própria é. Coitada, queria um tipo saído de um dos seus romances e saiu-lhe um homem. Flaubert não me faz rir à gargalhada como um Eça ou um Camilo, mas também é hilariante.
Este livro foi-me oferecido há 500 anos, pelo meu amigo M. que na sua letra disléxica me deixou uma mensagem mais engraçada do que parece, e o que disse, ao me entregar o livro, é o que melhor descreve a nossa amizade: "Escolhi esse, porque sei que gostas de ler estas merdas".

Na dedicatória Flaubert está a referir-se à acusação de imoralidade que sofreu devido a este romance.

sábado, 12 de julho de 2014



Monsieur Moreau* 

Correi bons vinhos; mulheres dignai-vos a sorrir!

- Temos de passar da morena para a loira! É esta a sua opinião tio Dussardier?
Dussardier não respondeu. Todos o apertaram para conhecer os seus gostos.
- Ora bem - disse ele, corando- eu gostaria de amar sempre a mesma!
Isto foi dito de uma tal maneira, que houve um momento de silêncio, ficando uns surpreendidos com tal candura, e outros descobrindo nela, talvez, o anseio secreto da sua alma.
Senécal colocou em cima do alizar o seu copo de cerveja, e declarou dogmaticamente que, sendo a prostituição uma tirania e o casamento uma imoralidade, mais valia abster-se. Deslauriers tomava as mulheres como uma distracção, e nada mais. O Sr. de Cisy tinha por elas toda a espécie de temor.
Educado sob as vistas de uma avó devota, achava a companhia destes jovens atraente como um lugar de perdição e instrutiva como uma universidade. Não lhe poupavam as lições; e ele mostrava-se cheio de zelo, a ponto de querer fumar, a despeito das crises de coração que o atormentavam todas as vezes.


in La Education Sentimental, Gustave Flaubert

Perdi a conta dos anos que passaram desde que a minha amiga D. me aconselhou este livro. De vez em quando lembrava-me do conselho e há umas semanas comprei por dois tostões, este velho e maltratado volume. Coloquei-o na mochila, comprei um bilhete de comboio, e nos dias seguintes ora com o Teddy, ora com a Joris ao colo e entre festas e lambidelas da Luna e do Tobby, fui até Paris conhecer Frédéric Moreau.

terça-feira, 8 de julho de 2014







princess smartypants* de Babette Cole.

sábado, 5 de julho de 2014



a alegria que estes pêlos me dão*

quinta-feira, 3 de julho de 2014




… e o seu gato preto e branco*

terça-feira, 1 de julho de 2014





teus olhos castanhos…*

domingo, 29 de junho de 2014






ali baba baba bali*

sexta-feira, 20 de junho de 2014




fresquinhas* aproveitam o que ainda resta de verde.

quinta-feira, 19 de junho de 2014










tosquia*em pouco mais do que cinco minutos ficam preparadas para a chegada do verão. Tirando alguma ansiedade ao sair do curral, tudo correu tranquilamente. Entregam-se nas mãos do tosquiador com uma moleza surpreendente, sem qualquer vociferação e sem espernear. Não fosse o som da máquina, tudo decorreria em silêncio. Realmente somos muito parecidos com as ovelhas...

quarta-feira, 18 de junho de 2014



na quietude da morte
velo o teu sono 
e afasto a saudade* Helena Vieira

domingo, 15 de junho de 2014



ménage à quac*

sábado, 14 de junho de 2014

camuflado*

domingo, 8 de junho de 2014

Conseil tenu par les rats, Gustave Doré (1832-1883)


O conselho dos  ratos*

Havia um gato maltês,
Honra e flor dos outros gatos;
Rodilardo era o seu nome,
Sua alcunha Esgana-Ratos.

As ratazanas mais feras, 
Apenas o percebiam,
Mesmo lá dentro das tocas
Com susto dele tremiam;

Que amortalhava nas unhas
Inda o rato mais machucho,
Tendo para sepultar
Um cemitério de bucho.

Passava por entre aqueles pobres,
De quem ia dando cabo,
Não por gato maltês,
Mas por um vivo diabo.

Mas Janeiro ao nosso herói 
Já dor de dentes causava,
E ele de telhas acima
O remédio buscava.
Entanto o deão dos ratos, 
Achando léu ajuntou
Num canto do estrago o resto,
E ansioso assim lhes falou:

"Enquanto permite a noite,
Cumpre irmãos meus, que vejamos
Se à nossa comum desgraça
Algum remédio encontramos.

Rodilardo é um verdugo
Em urdir nossa desgraça,
Se não se lhe obstar, veremos
Finda em breve a nossa raça.

Creio que evitar se pode
Esse fatal prejuízo;
Mas cumpre que do agressor
Se prenda ao pescoço um guizo.

Bem que ande com pés de lã,
Quando o cascavel tenir,
Lá onde quer que estivermos
Teremos léu de fugir."

Foi geralmente aprovado
Voto de tanta prudência;
Mas era dúvida achar
Quem fizesse a diligência.

Vamos saber qual de vós,
Disse outra vez o deão,
Se atreve a dar ao proposto
A devida execução.

"Eu não vou lá", disse aquele;
"Menos eu", outro dizia;
"Nem que me cobrissem de ouro"
Respondeu outro, "eu lá ia".

"Pois então quem há-de ser?"
Disse o severo deão;
Mas todos à boca cheia
Disseram: "Eu não, eu não."

Tornou-se em nada o congresso;
Que o aperto às vezes é tal,
Que o remédio que se encontra
Inda é pior do que o mal.

Assim mil coisas se assentam
Numa assembleia ou conselho;
Mas vê-se na execução, 
Que tem dente de coelho.

Jean de La Fontaine (1621-1695), tradução de Curvo Semedo (1766-1838)

sábado, 7 de junho de 2014






lost in tranlation
desabafei como quem confessa "por vezes sinto que sou a única que não gosto dos filmes Before Sunrise e Before Sunset (ainda não vi Before Midnight). Na categoria boy meets girl* talvez o meu preferido seja Lost in Translation".
Foi bom perceber que não estava sozinha. Afinal isto da confissão tem algo de redentor.

* Durante a noite o maior realizador de todos os tempos acordou, no seu caderno de mesa de cabeceira, descreveu o sonho que o acordara. No dia seguinte numa alegria estonteante contou à sua mulher que iria fazer o melhor filme de sempre, baseado no sonho que tinha tido. Quando a mulher lhe perguntou como tinha sido o sonho, ele respondeu que não se lembrava, mas que não havia problema porque tinha apontado tudo no seu caderno. Entregou-o à sua mulher e tudo o que ela encontrou lá escrito foi - boy meets girl.
Há uns anos o meu irmão contou-me esta história e recentemente adoptei a expressão para classificar um género de cinema que felizmente foge à comédia e ao drama românticos.