Madame Bovary*
A conversação de Charles era sensaborona e rasa como um passeio de rua e nela desfilavam as ideias de toda a gente em trajo vulgar, sem excitar emoção, nem riso, nem devaneio. Nunca tivera a curiosidade, segundo ele próprio dizia, de ir ao teatro ver os actores de Paris, enquanto residira em Ruão. Não sabia nadar, nem manejar as armas, nem atirar à pistola, e certo dia nem foi capaz de lhe explicar um termo de equitação que ela encontrara num romance.
Não devia um homem, pelo contrário, saber tudo, ser exímio em múltiplas actividades, iniciar a mulher nas energias da paixão, nos requintes da vida, em todos os mistérios? Mas aquele não ensinava nada, não sabia nada e não aspirava a nada.
in Madame Bovary, Gustave Flaubert
O que Emma pensa do seu marido revela muito do que a própria é. Coitada, queria um tipo saído de um dos seus romances e saiu-lhe um homem. Flaubert não me faz rir à gargalhada como um Eça ou um Camilo, mas também é hilariante.
Este livro foi-me oferecido há 500 anos, pelo meu amigo M. que na sua letra disléxica me deixou uma mensagem mais engraçada do que parece, e o que disse, ao me entregar o livro, é o que melhor descreve a nossa amizade: "Escolhi esse, porque sei que gostas de ler estas merdas".
Na dedicatória Flaubert está a referir-se à acusação de imoralidade que sofreu devido a este romance.





